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28 de fevereiro de 2020Aos poucos o tema automutilação ou “cutting” tem sido veiculada nas diferentes mídias. Ainda é um tabu falar sobre esse assunto, mas a questão é que essa prática está cada vez mais próxima das nossas casas do que imaginamos.
Acreditamos que automutilação é somente cortes no corpo feitos pela própria pessoa. Entretanto, isso não é uma verdade. Há outras formas de automutilação que não são tão divulgadas. Entre elas estão: puxões de cabelo, socos na parede, unhadas, fricção contra maçaneta de porta, corda no pescoço com movimento de vai e vem, se queimar com pontas de cigarros, etc.
A automutilação pode significar uma autopunição ou meio de externalizar e canalizar sentimentos.
Em pesquisa realizada por Adler e Adler (2011) os métodos de automutilação estão divididos da seguinte forma: 72% cortes, 35% queimaduras, 30% auto agredir usando o próprio corpo, 22% interferência de cicatrização de feridas, 10% puxar cabelos, 8% quebra óssea e 78% usam múltiplos métodos. Vale dizer, que, quem se automutila, pode se utilizar de mais de um método.
No Brasil ainda há poucas estatísticas e estudos sobre automutilação, porém em pesquisa, publicada na Revista The Lancet Psychiatry, entre os anos 2000 a 2014 o índice foi de 2.4% para 6.4%, um aumento de 160%. Isso sinaliza que há algo erra com os adolescentes e jovens adultos e as razões para esse aumento não são claras.
No Brasil com o aumento do número de casos, o Governo Federal sancionou a Lei 13.819/2019 que a partir de 26/07/2019 os episódios de automutilação, tentativa de suicídio ou suicídio devem ser notificados ao Conselho Tutelar e as autoridades sanitárias, ou seja, escolas que detectem crianças e adolescentes que envolvam essas questões deverão informar as autoridades competentes. Com a nova Lei será possível dimensionar o problema e elaborar políticas públicas.
O problema da automutilação é mais frequente entre adolescentes e jovens adultos. A incidência maior é entre o sexo feminino: 01 em cada 05 sofrem com esse distúrbio.
Pessoas que sofrem com esse distúrbio podem também sofrer de depressão, ansiedade ou transtorno alimentares.
A automutilação pode não significar a tentativa de suicídio, mas há maior risco de a pessoa atentar contra a própria vida.
Não se pode considerar a automutilação como exagero, frescura, que a pessoa precisa se ocupar ou imaturidade. Para a pessoa que causa isso em si própria, ela tem uma dor real que, nem mesmo ela, consegue explicar. Enquanto o adolescente se automutila, ele materializa a dor que sente e que é abstrata (vazio, angustia, raiva de si mesmo ou de outrem, tristeza, não pertencimento, falta de amor, etc.).
Enquanto a pessoa se automutila ela tem um alivio sobre as dores que sente, isso se deve ao fato, que no cérebro, o comportamento de autolesão está ligado a alteração em áreas associadas ao processamento da dor e da recompensa. O corte, o ato de puxar os cabeços, os machucados provocados liberam endorfina, o mesmo hormônio que causa sensação de bem-estar durante a atividade física. Com isso, o hormônio acaba por mascarar a dor psíquica que o aflige.
O processo de se automutilar vai aumentando aos poucos, pois com a repetição do ato, será necessário aumentar a frequência para que se tenha a sensação de alívio, isso acontece também com o uso de drogas, ou seja, a automutilação também é viciante.
Existem alguns sinais de alertas para os pais, tais como: isolamento, tristeza constante, distorção da imagem corporal, crises de raiva, mudança no desempenho escolar, uso de roupas que encubram todo o corpo (ex. uso de blusa de frio em pleno verão), aparecimento de cortes e arranhões, principalmente no braço ou nas pernas.
Pais que descobrem que seus filhos estão se automutilando devem procurar se aproximar deles, buscar fazer perguntas que mostrem interesse e não cobrança. Brigar, colocar de castigo, ficar revoltado não ajudará o filho a sair da situação. Será necessário buscar ajuda de profissionais como psicólogos e psiquiatras. Também é preciso ter claro, que o tratamento não será rápido, vai requerer tempo, pois será necessário que o adolescente desenvolva estratégias para gerenciar as pressões e sofrimentos emocionais.
CUMINALE, N. Feridas da Alma. São Paulo: Revista Veja, edição 2646, ano 52, número 32, pag. 80 a 82, 2019.
JAEN-VARAS, D.; MARI. J. J.; ASEVEDO, E.; BORSCHMANN, R.; DINIZ, E.; ZIEBOLD, C.; GADELHA, A. The association between adolescent suicide rates and socioeconomic indicators in Brazil: a 10-year retrospective ecological study. Rio de Janeiro: Brazilian Journal of Psychiatry, volume 00, número 00, 2019, pag. 01-07. Em: http://www.bjp.org.br/detalhe_aop.asp?id=748acesso em 09 de agosto de 2019.
SANTOS, A. A.; BARROS, D. R.; LIMA, B. M.; BRASILEIRO, T. C. Automutilação na Adolescência: compreendendo suas causas e consequências. João Pessoa: Revista Temas em Saúde, volume 18, número 3, 2018, pag. 116-142.
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